A era fim dos sistemas patos - por Ronaldo Dias Oliveira

Ronaldo Dias Oliveira, diretor da Brasil Price, faz uma análise do avanço do mercado contábil e discorre sobre como alguns sistemas ainda precisam melhorar para acompanhar esta evolução, e quais as tendências para o futuro.

O mercado contábil busca sistemas complementares especialistas que precisam integrar com o operacional para serem eficazes. 

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Antes eram os ERPs comerciais (sistemas de controle de emissão de notas e financeiro) que não conversavam com os sistemas contábeis. Lembro que, quando fui presidente da associação de Contadores de Araguaína, há cinco anos, junto com Sebrae da minha cidade, levamos 15 empresas contábeis e duas empresas de software comerciais à sede da Domínio, empresa de sistemas contábeis em Santa Catarina. 

A intenção era melhorar o processo de integração e importação de informações, para abandonar o trabalho de redigitar toda a movimentação financeira na contabilidade e alcançar maior eficiência nos escritórios.

Já se foram vários anos, e muitas empresas surgiram no mercado para facilitar esse processo. Porém ele ainda é árduo. Nem todas as empresas de software possuem soluções simples e flexíveis para importação de dados. Esse cenário ainda exige que os contadores saiam da zona de conforto e entrem num campo minado de layouts e muitas mensagens de erro na importação, além de precisarem reconferir e conciliar um grande volume de informações.

Mas o mercado está avançando: uma empresa de software online (Conta Azul) começou esse jogo integrando com bancos, puxando os extratos bancários e aplicações. E, na última mexida desse tabuleiro, incorporou outra que tinha um sistema contábil online (Wabbi), dando o pontapé inicial na próxima fase desse jogo, e isso deve trazer mais dinamismo ao mercado.

Mas esse jogo ainda não acabou. Restam outros campos nessa batalha de xadrez. Os sistemas de controle de processos e de recebimento de documentos, por exemplo, são um desafio para nós.

Há mais de 10 anos, eu idealizei o desenvolvimento de uma solução desta natureza. Ele seria via web, com auditorias e validações em recibos, datas e valores das obrigações acessórias por OCR (reconhecimento ótico de imagens com captura do texto, e posterior busca por palavra-chave), além de baixa de chamados e configurações de tarefas automáticas, dependendo do regime da empresa e do estado. Porém não encontrei na época empresas interessadas em desenvolver o projeto.

Faltava maturidade ao mercado, que ainda não estava tão preocupado com temas como gestão. Nessa época, estranhavam até mesmo o fato de uma empresa contábil ganhar prêmio de gestão (MPE BRASIL da FNQ e SEBRAE). "Como assim? Um contador ganhando prêmio de gestão?", indagava um empresário em 2008, na cerimônia de premiação da Brasil Price em Brasília.

Voltando a 2018, o maior problema agora é a falta de integração entre as ferramentas específicas e necessárias no nosso dia a dia e os sistemas contábeis, repositórios de todas as informações com que trabalhamos.

Apesar disso, dessa vez conseguimos construir uma solução que traz as informações em tempo real direto do sistema contábil, sem perda de tempo ou retrabalho. Ela é capaz de obter dados como quantidade de lançamentos, desempenho por colaborador, carga tributária, consolidação de informações contábeis de várias empresas, dentre outros dados que mostram a realidade de um escritório contábil cada vez mais sem papel, tudo diretamente do banco de dados, por meio de uma ferramenta de Business Intelligence, o Inteliss BI.

Desse modo, com raras exceções, nem sempre as empresas de sistemas contábeis permitem acesso ao seu banco de dados, ou facilitam gravações diretas por meio de APIs (API é um conjunto de rotinas e padrões de programação para acesso a um aplicativo de software ou plataforma baseado na Web, acrônimo em inglês Application Programming Interface, que significa Interface de Programação de Aplicativos).

Grande parte das empresas de sistemas contábeis deveriam perceber que o core business delas é compliance (o que não é pouca coisa, e exige altíssima capacidade de acompanhar tantas mudanças em legislação municipal, estadual e federal, com uma estrutura de pessoal técnico enorme) e deixar as portas (e as APIs) abertas para integração. Enquanto isso não acontecer, nenhum dos sistemas existentes vai melhorar por completo a dor dos contadores. Pois sempre haverá retrabalho, redundância de dados ou dificuldade de implantação e manutenção.

Assim como ocorreu no início dos “ERPs dinossauros” (Em Cobol, rodando Unix ou DOS. Para os mais jovens, consultem o Google pra entender), e depois com os novos em nuvem que não conversavam com os sistemas dos contadores, essa integração precisa acontecer urgentemente. Pelo bem dos nossos cabelos brancos, e pra facilitar nossa árdua tarefa de cobrar um preço justo e realmente ter lucro, além de ter mais tempo para a contabilidade consultiva, menos risco e mais controle.

Ninguém consegue ser bom em tudo, por isso é preciso deixar as tarefas que exigem foco e autoridade com quem entende do assunto e tem competência, expertise e capacidade de execução. Assim, teremos um ecossistema de empresas de tecnologia para contabilidade cada vez mais eficiente e com cada vez menos retrabalho e dificuldades de implantação e adaptação da equipe e dos públicos-alvos.

Então, o dever de casa para os sistemas contábeis é, cada vez mais, cada um jogar no seu quadrado, totalmente aberto às integrações.

Essa cultura de isolamento, cada um em seu mundo, é deletéria para a classe contábil e para o mercado como um todo. Temos várias ferramentas fantásticas, úteis e especialistas, mas que não conversam com o software contábil, com o ERP do nosso cliente ou ainda com instituições financeiras do cliente, o que gera enormes dificuldades. Temos vários públicos a satisfazer: funcionários, clientes, gestores. E, com as APIs, XMLs etc, as interações entre sistemas tornam bem mais fácil a árdua tarefa de gerir em plenitude uma empresa contábil.

Enquanto isso não acontecer, teremos vários sistemas patos, cada um fazendo um pedaço das nossas necessidades, ou até fazendo a maioria, mas de forma limitada, com retrabalho e dificuldade de implantação e operação.

Até a próxima, pessoal, vamos continuar a acompanhar este jogo de xadrez e ver a transformação em curso acontecer.

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