Uma real inovação disruptiva no mundo contábil

 

Uma real inovação disruptiva no mundo contábil

Em um artigo publicado anteriormente em meu blog, mostrei que a contabilidade online não é, conforme a definição científica do termo, uma inovação disruptiva. Um dos autores da teoria, o professor Clayton M. Christensen, da Harvard Business School, deixa claro que só há disrupção quando a inovação no produto ou serviço cria um novo mercado e desestabiliza os concorrentes que antes o dominavam. Ou seja, uma oferta mais simples e barata que consegue atender um público que antes não tinha acesso a este mercado. 

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Isso ocorre porque as empresas tradicionais tendem a se concentrar em melhorar os seus produtos e serviços para atender clientes mais exigentes — e geralmente mais rentáveis. Neste processo, as necessidades de alguns segmentos de mercado são amplamente atendidas, enquanto as demandas de outros segmentos são ignoradas  geralmente, os menos rentáveis.

Em outras palavras, as inovações disruptivas são possíveis porque as empresas tradicionais ignoram dois tipos de mercado: o de baixo valor (low-end) e os novos clientes. 

A fórmula para a criação de uma inovação disruptiva é simples: identifique quais tarefas os clientes precisam fazer, segmente-os por tarefas (não por produtos, tamanho, ou qualquer outra característica demográfica) e desenvolva soluções básicas, de baixo custo, que permitam que as tarefas dos clientes sejam realizadas. 

Sempre tenha em mente: inovações disruptivas necessariamente criam novos mercados e reestruturam os que já existem. Então, será que está ocorrendo alguma inovação deste tipo no mercado de serviços contábeis? A resposta é sim!

Escritórios tradicionais ofertam, com excelência, serviços de consultoria financeira e de custos a seus clientes. Poucas são as empresas que podem pagar por esse tipo de serviço especializado. A maioria absoluta do mercado sequer poderia pagar por poucas horas de um consultor júnior, quanto mais por um serviço contínuo de orientação nestes setores.

Recentemente, novas tecnologias apareceram, pavimentando o caminho para uma verdadeira disrupção. Imagine se uma pequena empresa de serviços pudesse utilizar um sistema em nuvem para registrar suas contas a pagar e a receber. E que, periodicamente, pudesse importar o extrato bancário para o sistema, conciliando o que foi pago e recebido com o previsto? 

O benefício imediato seria simples: atrasos em pagamentos e recebimentos seriam reduzidos. Esquecimentos, idem. Mas, seria possível também fazer algo nunca antes imaginado por essa pequena empresa: analisar seu futuro financeiro! Fazer simulações hoje para encontrar soluções para problemas que aconteceriam amanhã!

E se esse sistema fosse integrado à contabilidade, apropriando cada transação nas contas, clientes e centros de custo corretos? O que aconteceria? O resultado mais óbvio: ganho de produtividade para a escrituração dos lançamentos contábeis. Mas isso está longe de ser uma inovação disruptiva. 

Contudo, e se o empreendedor recebesse relatórios periódicos com os resultados e custos, análises práticas sobre receitas, rentabilidade e custo por cliente, projeto, produto e equipe?

Em resumo, o fornecimento de consultoria financeira por meio de canais eletrônicos, integrando as tecnologias é, de fato, uma disrupção, pois fornece soluções muito baratas ao mercado low-end e atende a um público-alvo que as consultorias tradicionais não se interessam.

Muitos alegam que esse mercado não existe. Que as pequenas empresas não querem saber de gestão, nem de contabilidade. E que não querem pagar por isso. A estes sugiro que realizem pesquisas quantitativas e qualitativas. Que visitem empresas e conversem com empreendedores de fato. 

Lembro sempre do pensamento de Fernando Dolabela, autor do livro Segredo de Luiza: empreendedor é um insatisfeito que usa seu inconformismo para criar soluções, serviços, produtos. O insatisfeito que só reclama não é empreendedor, é reclamador!

Há muitos reclamadores no Brasil. Em todas as atividades econômicas e profissões. Mas existem milhões de empreendedores de verdade também. E eles estão, a cada dia, mais bem instruídos e informados. 

Em meio a 9 milhões de empresas legalmente constituídas, não é possível conceber que todas tenham sido criadas por reclamadores. Essa seria uma visão por demais pessimista do mercado e que contraria dados concretos apontados em pesquisas como a Global Entrepreneurship Monitor (GEM).

A pesquisa aponta que a taxa total de empreendedores (iniciais e estabelecidos), como percentual da população entre 18 e 64 anos, foi de 34,5%. Ou seja, estima-se que há cerca de 45 milhões de empreendedores no Brasil. A mesma pesquisa aponta que 16% deles têm educação superior completa. Além disso, 13% dos empreendedores buscaram apoio de algum órgão relacionado com o desenvolvimento do empreendedorismo, como o Sebrae. Ora, quase 6 milhões de empreendedores querem apoio aos seus negócios. Este número não pode ser desconsiderado, em especial por profissionais que têm como objetivo suportar a gestão empresarial. 

Ocorre que o empreendedor ou o gestor não quer mesmo receber relatórios ilegíveis ou codificados no mais rebuscado “contabilês”. Ele quer informação sobre o seu negócio. Qual projeto dá resultado, qual o maior custo, quem é o bom cliente, qual é o cliente que dá prejuízo. Entender o que se deve fazer para ser mais eficiente, produzir e atender melhor.

Entretanto, a contabilidade, assim como a tecnologia, é meio, não fim. E isso, em hipótese alguma, desmerece a ciência da riqueza. Ao contrário. O prestador de serviços que ainda não compreendeu que sua missão é servir ao outro não é digno da atividade que executa. Servir ao interesse do outro, não ao seu: essa é a verdadeira missão de um profissional de sucesso. E, sem entender quais são os interesses do outro, nada pode ser feito.

Como disse nosso saudoso professor Antonio Lopes de Sá: “Muita gente não sabe efetivamente o que é contabilidade. Porque entende que contabilidade é apenas escrituração. É apenas um balanço que se demonstra, um lucro que se apresenta, esquecendo-se de que isso é apenas informação. E de nada adianta informar se não sabemos o que fazer com a informação. (…) Ou seja, a explicação dos fatos, a interpretação dos acontecimentos compete exatamente ao contador”. E ainda completa afirmado que a prosperidade das empresas está nas mãos dos administradores, “assessorados pelos técnicos que competentemente conhecem sob que condições a riqueza se torna próspera. É isso que faz da contabilidade uma ciência!”.

Então, utilizar sistemas financeiros em nuvem integrados aos sistemas contábeis torna-se uma inovação disruptiva se, e somente se, estas tecnologias viabilizam a aplicação da consultoria contábil a baixo custo para mercados ainda não atendidos.

E, novamente voltando ao professor Christensen, para implementar essa inovação disruptiva, o empreendedor contábil precisa realizar uma segmentação de mercado por tarefas. Identificando quem são os empresários e gestores que realizam análises financeiras e contábeis com alto custo operacional ou precisam realizar (e não o fazem justamente por inviabilidade de custo).

Recentemente realizei uma pesquisa utilizando a metodologia NPS (Net Promoter Score) coletando 2.067 respostas de empresas clientes de escritórios contábeis em todas as unidades da federação.

Dentre as inúmeras informações obtidas, pude constatar justamente essa demanda por uma atuação mais consultiva por parte dos escritórios contábeis. O fato é que os 33% dos escritórios classificados de forma extremamente positiva pelos seus clientes já atuam desta forma. 

Assim, cabe aos 67% restantes buscar formas de atender às necessidades dos segmentos até então ignorados. 

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Um caminho bastante interessante é utilizar-se da tecnologia para levar consultoria a 6 milhões de empreendedores que procuram orientação sobre seus negócios. Isso, sim, é inovação contábil disruptiva!

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